O som do berimbau chamou a atenção de quem estava na Alesc na sexta-feira (22/5). Conduzindo muito mais do que movimentos de luta e dança, cada toque carregava histórias de resistência, ancestralidade, coragem e transformação. Na capoeira, o corpo gingando também fala de pertencimento, identidade e da força de mulheres que há décadas ocupam espaços historicamente marcados pela desigualdade.
Foi nesse cenário de reconhecimento e celebração que a Alesc, por meio da Comissão de Educação e Cultura, por proposição da deputada Luciane Carminatti (PT), realizou o seminário “Mulheres na Capoeira – Uma Década de Tradição, Inspiração e Resistência Transformam Gerações”. O encontro reuniu mestras, professoras e praticantes de diferentes regiões do país para valorizar mulheres capoeiristas.
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Confira a íntegra do seminário (parte 1)
Confira a íntegra do seminário (parte 2)
Historicamente construída em um ambiente predominantemente masculino, a capoeira encontrou nas mulheres um dos seus principais pilares de resistência. A presença feminina na roda rompe estereótipos, desafia preconceitos e reafirma a capoeira como instrumento de transformação social, cultural e educativa.
Participando de forma on-line, a deputada Luciane Carminatti destacou que a capoeira representa igualdade e pertencimento:
“A capoeira representa resistência, identidade e igualdade. Na roda, homens e mulheres pertencem ao mesmo espaço e têm o mesmo direito de expressar sua cultura, sua arte e sua voz. Mulheres na capoeira representam a luta por igualdade e também a resistência de um povo que segue buscando reconhecimento na arte, na cultura, no esporte e na dança.”
A parlamentar também defendeu que a iniciativa tenha continuidade nos próximos anos.
“Mulheres na Capoeira tem que ser este ano a edição número um e no ano que vem a edição número dois.”
Pioneirismo feminino em Santa Catarina
Em Florianópolis e região, a força feminina dentro da capoeira possui uma trajetória marcada pelo pioneirismo. Foi na Grande Florianópolis que se formou a primeira mulher mestra de capoeira de Santa Catarina, Mestra Rosa Costa, hoje uma das principais referências para novas gerações.
Com 43 anos dedicados à capoeira, Rosa Costa ressaltou que permanecer nesse espaço ainda é um desafio diário para muitas mulheres.
“Se manter na capoeira é um dos maiores desafios, porque a gente enfrenta muita desigualdade e muita violência às vezes. Ser mulher, mãe, trabalhadora e capoeirista exige coragem todos os dias.”
Ela também destacou que a prática ainda carrega marcas do machismo estrutural. “A capoeira ainda é um espaço muito masculino. Muitas vezes precisamos nos encorajar o tempo inteiro para ocupar um lugar que também é nosso por direito.”
Para a mestra, o seminário representa um momento histórico para Santa Catarina e para a própria capoeira.
“Nunca reunimos tantas mulheres mestras de capoeira em nenhuma parte do Brasil. É o início de uma transformação”, destacou.
Resistência como parte da história
Mestra Siomara Sousa Santos – conhecida como mestre Mara, de São Paulo, também reforçou que resistência é uma palavra inseparável da história da capoeira.
Com 44 anos de prática e 29 anos de mestria, ela lembrou que a arte nasceu da luta do povo negro e segue sendo símbolo de permanência cultural.
“A resistência faz a capoeira existir até hoje. Desde os quilombos até os dias atuais, ela sobreviveu à marginalização e segue sendo arte, luta, cultura, dança e esporte.”
Ela chamou atenção para a baixa presença feminina na mestria da capoeira no mundo.
“Hoje somos menos de 500 mulheres mestras no mundo inteiro. Reunir tantas mulheres neste evento é algo raro e histórico”, ressaltou.
Cultura e protagonismo feminino
O seminário reforçou a importância da valorização da cultura afrobrasileira e do protagonismo feminino dentro da capoeira, reconhecendo mulheres que transformam vidas e comunidades por meio da arte, da educação e da resistência cultural.